Posts de janeiro \10\UTC 2007

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O Progresso precisa de um astrolábio! (ou “O que acontece quando Entidades incompetentes usam técnicas desnecessárias para piorar o que já era ruim”)

janeiro 10, 2007

Recentemente, fui golpeado sem saber por essa entidade mística que nos cerca e enche nossos bolsos de coisas fabricadas por pessoas pobres na Ásia e que liberam sinais eletromagnéticos com fins duvidosos: o Progresso. Tudo bem, eu passo meus dias em frente a computadores lendo feeds de sites que mostram especulações e novos produtos capazes de fazer o que você nunca quis que eles fizessem mas acha uma boa idéia que eles agora façam . O porém é que não foi um desses que me pegou de tocaia. Era algo que habitava minha geladeira.

Férias. Entre aspas. Eu continuo trabalhando em casa, então é só o local de trabalho que mudou. Ao invés da internet super-rápida que cai o tempo todo do laboratório onde trabalho, tenho a internet super-lenta que cai o tempo todo de casa. Tanto faz, porque os resultados, em essência, são os mesmos. Só é preciso um pouco mais de insistência pra conseguir ver que o tal e-mail que você não estava esperando não chegou. Enfim. As férias foram citadas para dar ênfase na proximidade que eu tinha dessa maravilha do mundo contemporâneo, e nem sabia.

A grande vantagem de se trabalhar em casa é que, em geral, você não precisa ir comprar as coisas pra comer tantas vezes quantas forem as refeições que você quer fazer. Você simplesmente levanta de uma cadeira, caminha até a cozinha, pega algo pra comer e se senta na cadeira mais próxima. Ou, se ainda tiver energia depois dessa jornada, volta até a cadeira do computador e se prepara pra engordurar um pouco mais as teclas e reduzir a vida útil de seu teclado e mouse enfiando farelos de comida neles. Eu preferi a primeira opção, pois são praticamente… nove passos (eu acabei de contar) daqui até a geladeira. Não há ser sedentário nos dias atuais que aguente.

A mesa da cozinha, local da Grande Iluminação… Quem diria, hein? Ela já foi palco de sangrentas batalhas de canastra e pôquer, mas não de tamanho rito de passagem. Pois bem, lá estava eu com a coisa retirada da geladeira. Um pote de iogurte. Meu novo Santo Graal.

Os potes de iogurte, de modo geral, são coisas bem perigosas. Os incautos que tem a audácia de tentar lamber o papel para degustar a camada superior (aquela que geralmente é mais espessa e pastosa que o resto) já perderam pedaços da língua e boas quantidades de sangue. No entanto, em algum lugar de nosso Universo, seres maiores estavam preocupados com a segurança de todos, e encontraram uma saída. Durante séculos, (na dimensão deles, que fica num vórtex temporal que faz com que cada século seja equivalente a 4,781 nano-segundos) eles se reuniram em grandes salões repletos de figuras ilustres de diversas regiões da Existência, incluindo personalidades que não tinham nada a ver com o assunto, não ajudaram em simplesmente nada e ainda ficaram contando vantagem umas para as outras.

O sábio conselho chegou à uma conclusão que nem mesmo todas as mentes brilhantes da Terra conseguiram chegar em milênios de história: “Se a embalagem não puder ser aberta, ela nunca mais ameaçará a integridade física de cidadão algum daquele planeta”. E Assim Foi Feito. Não mais existem meios mortais simples para abrir as embalagens de iogurte (nada que não inclua um garfo ou um cabo de colher habilmente empunhado). A Humanidade foi salva pelo conselho milenar universal chamado de Progresso.

Obviamente, existem outras versões da mesma história. Alguns dizem que em algum lugar em Minnesota dois jovens estudantes de Design Industrial decidiram que a embalagem de iogurte aberta era um ultraje e criaram um Plano Diabólico para manter fechadas todas as embalagens de iogurte do mundo. Uma versão alternativa da mesma história diz que na verdade eles só queriam ficar ricos com royalties.

A verdade é que tudo isso é uma droga. O tal Progresso não sabe mais para onde ir, então decide ir para todos os lugares ao mesmo tempo. Perdendo tempo para resolver questões importantes como essa (para eles, claro) e para forçar doutores em universidades a publicar papers (que ou não contam nada de novo ou contam algo que não serve pra muita coisa), eles se esqueceram da época em que com apenas sussurros de inspiração nos ouvidos certos eles realmente mudavam o mundo. Para melhor do que era. Talvez esteja na hora de pensar no assunto com mais seriedade, ao invés de desejar o iPod verde-limão que toca vídeos do Tiririca ao seu bel-prazer.

Não, esse não é o meu caso.

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